Identificação e Características do Objeto
Miniatura

Acervo
Acervos Transcestrais
Número de Tombo
193
Número de Registro
MUTHA.AH.AD.AT.FS.2024.0193
Objeto
Fotografia Digital
Título
Acúmulo de Ausências (parte 1)
Autoria
Foto (Taeyra José), Objeto Vestível (Filipe dos Santos)
Descrição Intrínseca
Fotografia colorida de um manequim branco, sem cabeça e braços de frente. Ele está adornado com uma vestimenta composta por tecidos transparentes furtacor, que estão sobre um tecido de animal print de onçinha preto e amarelo. Há alguns cordões nos tom de amarelo. Uma blusa de renda de gola circular adorna a região da nuca e ombro. Há um colar de peças bege e outro branco mais comprido. Na parte inferior, o manequim não veste nada. No fundo é possível ver paredes de azulejo branco, com caixas e sacolas de roupas e tecidos, suportes e um banco no chão.
Dimensões
4032x3024
Material
Digital
Origem
Nova Holanda/Favela da Maré/Rio de Janeiro (Fotografia), Casa de Filipe dos Santos/Rio Comprido/Fallet/Rio de Janeiro (Objeto Vestível)
Procedência
Nova Holanda/Favela da Maré/Rio de Janeiro
Observações
Não
Tipo de Aquisição
Doação
Pessoa ex-proprietária
Taeyra José
Data de Aquisição
outubro 15, 2024
Estado de Conservação
Bom
Classificação Etária
Livre
Informações Contextuais
Descrição Extrínseca
“Esse objeto é uma alegoria carnavalesca, né? Que foi feita a partir de reaproveitamento de materiais que são deixados lá no... Ah, como é que é o nome? Ali atrás, de onde as pessoas desfilam no carnaval.[...] Foi recolhido materiais ali atrás de Sapucaí, né? Pra montar esse objeto vestível. E ele é um objeto que fala sobre ausências. Que FIlipe trouxe muito essa questão, assim, né? Do que que fica... Aquilo que nunca vem, de uma certa forma. Porque não foi usado pra desfilar, não foi usado pra... Pra ser desfilado no carnaval mesmo, sabe? Então, é um objeto carnavalesco, mas na ausência, nessa ausência do carnaval, assim. Deslocado, né? Nesse tempo do período carnavalesco. É uma alegoria que trata sobre essas questões de ausência também, mas sobre orixás, sobre Exu, esse tridente também, que o FIlipe traz, assim. Essa parte do objeto é a parte superior, né? Da roupa. Existia uma... Um tipo de vestido também que tinha sido feito, mas... Acabou se perdendo. Então, essa é uma ausência também, né? Que se torna, assim, esse pedaço dessa obra de uma certa forma incompleta. Mas ela é completa só... Essa parte assim, ela também já é completa de várias formas. São vários detalhes, assim, que foram utilizados. Esse tecido reaproveitado foi utilizado em palha, renda, voal, [viés] diversos. E o FIlipe trabalhava muito com tecidos, assim, né? Com tecidos e diversos outros materiais, assim. Também tem espuma, também tem a estrutura. O FIlipe tem arame, tem diversos materiais misturados. Para compor essa obra. É... FIlipe fez essa exposição, que eu vou enviar o nome do lugar e a época que foi feita. E logo depois dessa exposição, FIlipe levou essa obra no dia da retirada dos objetos. FIlipe levou essa obra para a minha casa, que era onde estava se organizando para morar também. Junto com diversos outros materiais, roupas e coisas que eram de objetos pessoais de FIlipe também, né? Que tava se mudando para morar comigo. Mas logo após aconteceu suicídio de FIlipe, por questões diversas, assim, da vida. E essas obras ficaram na minha casa. E aí, conversando com a mãe de FIlipe, com os amigos, a gente teve essa vontade, né? De... Porque FIlipe excluiu o Instagram, excluiu coisas que traziam suas obras, traziam sua arte para o mundo, que poderiam ficar em exposição para sempre. Mas
FIlipe apagou as redes sociais, a principal, né? Existe essa outra que eu vou enviar também, que é o [Um Dois Árvores]. Sobra essa, mas acaba que fica essa ausência dos registros, né? Das obras artísticas de FIlipe. A gente conversou sobre tentar eternizar o máximo de obras possíveis em museus e exposições, do que tivesse como a gente expor essas artes que ficaram para trás, né? Da gente lançar no mundo para ficar registrado que essa função existiu, que era um artista incrível, que fez muitas coisas maravilhosas. Então, quando surgiu né? O edital do Acervo Transcestrais, eu enviei a fotografia dessa obra na intenção de enviar a obra física. Porque eu acho que, por mais que a foto seja muito bonita, ainda assim você consegue ver a obra, ainda assim você sentir né? Fisicamente um dia, se um museu tiver esse espaço físico, que possa ter essa obra exposta, para que as pessoas vejam os detalhes, possam tocar, possam interagir, possam vestir também, para que sintam um pouco dessa energia que FIlipe tinha também. A minha intenção vem muito nesse lugar também, para poder ter um lugar seguro, né? Porque também minha vida não é muito estável, e eu não tenho condição de manter por muito tempo. Faz dois anos, e agora eu estou numa situação que eu preciso fazer das coisas que eu tenho, várias coisas, e eu não posso me desfazer dessa obra. Então, eu preciso…[...] É que nesse momento da minha vida eu estou com dificuldade de manter uma estabilidade, assim, de território. Então a minha intenção é enviar obra física, porque criando essa estratégia de manter a obra segura e intacta, né? Até que um dia, quando o Mutha tiver um museu físico, eu posto aqui para as pessoas terem contato com ela. Eu acho que é muito por esse caminho de manter essa memória viva, manter esse contato e essas energias ainda funcionando também. [...] Filipe era uma pessoa que era... Era uma mãe, era uma... Essas relações todas se atravessam de várias formas. Filipe salvou minha vida assim, mais de uma vez. Da gente viver em situações de extrema vulnerabilidade social assim, a gente acabava [tentando] essas coisas, de se machucar e tal. E aí, o Filipe era meio que um anjo da guarda, ao mesmo tempo uma amiga, uma mistura de tudo isso, sabe? Uma irmã mesmo. Então, eu não tenho como só trazer um rótulo, né? Porque, querendo ou não, é um rótulo. Mas era um grande amor assim da minha vida também. Era uma pessoa que dividia muitas coisas, assim. A gente conversava muito, se dava muita ajuda. É uma mistura, né? Acho que uma irmã, né? Era uma boa forma. [...] Eu acho que eu queria trazer assim, uma questão, que é sobre como nós, artistas independentes, que estamos em situação de vulnerabilidade, com várias interseccionalidades, que colocam o nosso corpo num lugar de um corpo público, um corpo excluído, um corpo tratado como uma coisa, até como uma aberração assim, uma coisa da fora do comum. Como que o nosso corpo é desvalorizado enquanto a gente não enxerga as potencialidades, assim. Uma das coisas que eu queria deixar registrada assim, é que, por muitos anos, Filipe passou a vida toda, praticamente né? Fazendo arte de vários tipos, pinturas, fazendo artes plásticas, escultura, moda. E isso não... Pela questão do sistema e pela forma como a vida trata a gente, isso não ganhou a visibilidade que deveria ter ganhado. Eu tava conversando com a mãe de Filipe, Regina, né? O nome dela é Maria Regina, e ela tava falando que ela foi lá em São Paulo, no museu, e ela viu cada obra de arte que ela ficou assim, “Gente?” Ela não conseguia aceitar, sabe? Como que existem certas obras que vão para exposições, para espaços de grande prestígio, e são obras que tratam sobre coisas que, de uma certa forma, não se relacionam com o povo, com a nossa vida. E as obras de Filipe todas se relacionavam com a nossa vida, com a nossa realidade, com a luta de sobreviver, assim, de criar estratégias para sobreviver, para viver, ser um [bom viver]. E isso não foi visto como algo... Como as pessoas falam, quando a pessoa é vista como genial, assim, ela é genial, sabe? Ela trata sobre isso. Porque é isso, ninguém está olhando para a gente. Então, de uma certa forma, a gente ainda tá no Sudeste, que ainda é o lugar mais com visibilidade no nosso país, mas, ainda assim, muitos artistas como Filipe, como eu, acabam ficando nesse lugar de apagamento, assim, de falta de valorização da arte, assim, do campo artístico em geral. Filipe fazia teatro, Filipe fazia essas artes divertidas, era uma pessoa que tinha passado por uma terra. Tinha um trabalho assim, de… De trazer coisas orgânicas para a mesa, ter essa visão. Então, era uma pessoa que era muito importante para a vida, mas que, pela vida e o mundo não valorizar, acabou que Filipe mesmo parou de ver seu próprio valor no mundo e não fez mais, continuou sangrando. É o que a Regina fala, o mundo era escroto demais para o Filipe e, de uma certa forma, era mesmo, não só para o Filipe, mas para muitos de nós. Mas a gente tá aí encontrando formas de manter essa memória viva e eu espero muito que isso seja o início assim, dessa... Desse reconhecimento de quem Filipe foi para o mundo. [...] (Tayerã José, Acervos Transcestrais, 2024)
Período
Fevereiro ou Março de 2024 (Fotografia), 2022 (Objeto Vestível)
Referências Bibliográficas
Não
Exposições
Não
Publicações
Redes Sociais de Filipe dos Santos e Taeyra José (Instagram)
Restauro
Não
Pesquisas
Pesquisa realizada pelo Museu Transgênero de História e Arte - Mutha para a construção das coleções pertencentes ao eixo temático Acervos Transcestrais, contemplada por meio do edital Funarte Retomada Ações Continuadas - Espaços Artísticos 2023.
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Data de Registro
fevereiro 20, 2025
Registrado por
Ian Habib | Mayara Lacal | Beatriz Falleiros